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Editorial

23 de Março de 2014 as 14:03:06



EDITORIAL - Manipulação da classe média e a ortodoxia econômica - por Wilson R Correa



Neste domingo de março, mês em que se relembra os 50 anos do golpe militar de 64, o GLOBO publica uma entrevista concedida por Delfim Neto. Lá pelas tantas o reporter pergunta ao entrevistado se é possível imaginar a ocorrência, hoje, de um novo 1964, ao que Delfim responde:
 
“Não tem nada de novo 64. Isso terminou porque o processo histórico nos impôs uma Constituição (de 1988) da qual saíram instituições muito mais robustas. É inimaginável hoje uma situação fora do regime democrático. Mesmo porque as pessoas aprendem."
 
De minha parte, penso que tínhamos em vigor, naquela época, a belíssima Constituição de 1946, que garantia plenos direitos civis ao povo brasileiro e não trazia abertura a golpes. Tanto isso é verdadeiro que, instalado o regime de exceção, cuidou-se em 1966 de alterar a Constituição para dar acabamento a uma máscara de legitimidade ao novo regime.
 
Tínhamos, contudo, uma cultura autoritária predominante, com forte resiliência junto ao povo mais humilde, resquício, creio, da experiência trabalhista positiva da ditadura do Estado Novo, bem como da intensa urbanização da economia e sociedade brasileira. Muitos de nós ouvimos dos mais velhos a frase de que seria preciso "um ditador para dar um jeito em tudo isso!".
 
No presente momento, em busca de legitimar o golpe de 64, a tendência dos homens que dele participaram é de reforçar a tese de que aquele foi um momento excepcionalíssimo da história brasileira, em muito diferente do quadro atual. 
 
Mas, a história demonstra que não foi bem assim. Momentos como aquele tivemos no Brasil em 1917, 1922, 1932, 1935, 1946, 1954, 1955, 1961 e 1962, em movimentos sociais e econômicos que se mesclaram com tentativas de golpe de Estado.
 
Em 1964, o pânico foi cultivado durante muitos meses, a grande imprensa alimentou a ideia e pediu nos editoriais, por muito tempo, a intervenção das forças armadas, criando um ambiente favorável ao golpe. Lincoln Gordon, embaixador dos EUA, garantiu recursos aos revoltosos, bem como a Armada norteamericana estacionou próxima às costas brasileiras, para garantir o sucesso do movimento diante de eventual necessidade de apoio direto, revelam pesquisadores da história brasileira.
 
Ciente dessa movimentação, João Goulart optou por não resistir ao golpe de estado para não haver derramamento de sangue e para que o País não fosse "desvirginado" pelas botas norteamericanas em nosso território, declaradamente.
 
Ontem, sábado, as "marchas com Deus pela família" espoucaram, pedindo o retorno dos militares, na querida São Paulo, no Rio e em Brasília. O movimento foi um fracasso em termos de público, pois a direita não conseguiu levar às ruas o contingente que, em 1964, mobilizou cerca de 100.000 pessoas no Rio e em São Paulo. 
 
Constituição Democrática não segura o Golpismo
 
Muito mais que uma "Constituição robusta", como afirma Delfim, o quadro atual é que obstaculiza um golpe de direita é o ambiente econômico de pleno emprego, de controle da inflação, de segurança e estabilidade cambial, de investimentos estrangeiros intensos no País, de avanço recorde na distribuição de renda, de universidade para todos no Brasil e de capacitação de cerca de 30.000 técnicos e universitários no exterior, de habitação popular, de distribuição gratuita de medicamentos, de melhoria da renda da população, de grande mobilidade social e expansão da classe média etc.
 
Também a expansão dos pequenos negócios, do franchising e do empreendedorismo estão vinculados ao modelo de recuperação da economia brasileira que, estagnado por décadas, floresceu a partir de 2003, notadamente.
 
Além disso, o quadro atual é também de grande consciência popular de que tudo isso foi muito difícil de ser obtido por conta da arrogância e ignorância de setores da elite brasileira, em seu descompromisso histórico com o povo brasileiro.
 
Ao contrário do que Delfim afirma em sua entrevista, muitos brasileiros não aprenderam com as misérias trazidas pelo golpe de 64; e nenhuma melhoria social e econômica está absolutamente garantida. Ao contrário, setores da elites buscam manipular a massa e seus "filósofos" estão a defender neste momento:
 
(1) a redução dos gastos com programas sociais do governo; 
 
(2) um choque câmbio-salários para diminuir salários;
 
(3) uma reforma fiscal voltada à redução do custo da mão de obra; 
 
(4) uma política de stop and go para a redução do nível de emprego da mão de obra, como solução para o aumento da produtividade, ao invés do empresariado buscar a incorporação acelerada de avanços tecnológicos ao processo produtivo;
 
(5) o império das leis de mercado e o afastamento completo do Estado nas definições do quê, quanto e para quem produzir, a quê preço e com qual tecnologia, em um modelo cuja desregulamentação pelo Estado reproduz não somente as sucessivas crises econômicas que se observam na história econômica, como também o subdesenvolvimento e a desigualdade social que ainda caracteriza a economia do País. 
 
Interessante observar que os investimentos, que o empresariado deve ao País são contidos pelo joguinho de expectativas criadas e manipuladas pelos próprio empresariado, em um processo ensimesmado de chantagem contra o Estado, o governo e a Nação. Ao mesmo tempo, o empresariado reclama de uma pretensa ingerência do governo no mercado. 
 
Isso é bastante mais visível no caso do setor financeiro, em que os grandes bancos privados contingenciam o crédito empresarial, sob a argumentação de elevação de risco de crédito -- no caso de bancos estrangeiros, fogem com o capital do País. Diante desse quadro de vacância, os bancos públicos (BNDES, BB, Caixa, BASA e Banco do Nordeste) assumem a responsabilidade de apoio creditício à atividade econômica, emprestando para giro e investimento e acabam elevando seu share e seus lucros, share que em seguida é reclamado pelos bancos privados, sob o argumento de que o governo estaria intervindo muito na economia. 
 
Mas foi exatamente essa política que permitiu ao País resistir até este momento  --- com crescimento econômico e pleno emprego  ---  à crise econômica que devastou a economia americana e europeia. Foi esta política que permitiu o avanço dos pequenos negócios e do franchising, com seus milhões de empregos gerados, transformando a face do Brasil.
 
O alerta deve ser dado: somente a persistência e a obstinação das pessoas poderá proteger os avanços conseguidos, pois o ambiente mundial é de fortalecimento da extrema direita e os movimentos iniciais desse grupo, em nosso País, não vão parar nas pobres passeatas deste sábado. 
 
É evidente que muito resta a ser feito nesse País continental, após séculos de expoliação e descaso com seu povo. Não se pretende nem há como negar. Mas, se até os bandidos dos morros do Rio estão combatendo intensamente para retomar suas bases de negócios, porque não fariam o mesmo aqueles que se aproveitaram das frágeis estruturas institucionais e jurídicas da Nação e da cordialidade de seu Povo ? 
 
É preciso então resistir ao avanço da manipulação da classe média e da mediocridade,  ignorância e descaso de setores da elite que, à guisa de um pretenso perigo vermelho e ameaça à família, absolutamente inexistentes, buscam impor ao Estado um receituário econômico ortodoxo integrado a uma proposta de globalização desregulada, cruenta e subalternalizante aos interesses do capital financeiro internacional, com o fito de cessar o resgate da dívida social do País, reverter os ganhos sociais e econômicos até o momento democraticamente obtidos, bem como solapar o mercado das pequenas e médias empresas criado a partir da mobilidade social e expansão da classe média brasileira
 


Fonte: da Redação.

 
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